Era uma vez crianças que não sabiam que existia vida além dos eletrônicos


Em um tempo não tão distante era possível fazer a chamada “vista grossa” nos efeitos dos eletrônicos na visão das crianças. Isso porque muitos responsáveis não sabiam como lidar com a nova realidade. A pandemia, entretanto, trouxe à tona o problema de forma brusca e desordenada, obrigando famílias a buscarem ajuda.


Deu-se início a busca por informações e soluções para educar os pequenos quanto ao uso adequado dos eletrônicos. Motivo? As crianças sobrecarregaram seus sistemas visuais no acúmulo de horas expostas ao eletrônicos. Além das aulas on-line, que se somaram aos hábitos antigos do uso dos eletrônicos (jogos, entretenimento, redes sociais), a grande maioria começou com um ou mais sinais inerentes ao uso excessivo do foco único de perto. Dores de cabeça, dores nos olhos, enjoo, lacrimejamento, olho torto, desinteresse escolar, fadiga, dispersão, baixa autoestima, agitação, insônia ou sonolência, distúrbios alimentares, são alguns sinais de fadiga ocular.


O fato é que, quando se passa mais que uma hora ininterrupta visualizando imagens a uma distância menor que 50cm, obrigamos os músculos oculares a contraírem por longo tempo. Estes fadigam e chegam ao espasmo muscular (situação que os músculos não conseguem mais responder a estímulos), razão do embaçamento da visão para longe, independente do uso ou não de lentes corretivas. Acontece que o nosso sistema visual faz a chamada miopia acomodativa (ou falsa miopia), que pode se tornar permanente caso não ocorra mudança de hábitos.


Outra consequência alarmante está na luz dos eletrônicos, a chamada luz azul, descrita recentemente pelos seus malefícios nas noites de sono (podendo levar alteração nos níveis hormonais, comportamental, de memória) e para retina (a hipótese é de envelhecimento precoce).


Podemos estar diante de uma geração pós-Covid, com sequelas que comprometeriam toda uma vida. O sedentarismo faz parte dessa lista.


O tratamento oftalmológico é individual, vai desde a prescrição dos óculos até o uso de medicamentos. Entretanto, dependendo do tempo e quantidade de duração, o atraso sofrido nesse período, não é corrigido automaticamente. Algumas crianças precisam de tratamento multidisciplinar. A exposição da criança ao sol com atividades ao ar livre, mudança de hábitos, horário regular de dormir e acordar fazem parte do tratamento. Está aí a sugestão para integração de médicos, pedagogos, professores, psicólogos, nutricionistas e demais profissionais para traçarem estratégias de ajuda para toda família.

Enfim, a pandemia nos obriga a “escolher” educar as crianças para o uso dos eletrônicos provando que existe vida além dos eletrônicos, além de marcar definitivamente os olhos como um órgão sinalizador para busca de tratamento.


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*artigo escrito por Claudia Maestri, médica formada pela Emescam, mestre e doutora pela USP de Ribeirão Preto, e pós-doutora pela Unifesp em ciências visuais. Criadora do programa EYE PREVENT FOR KIDS, cujo compromisso é diminuir a cegueira no mundo. Autora do livro “oftalmopediatria in foco, contada em prosa”.


Fonte: https://www.folhavitoria.com.br/geral/blogs/educatech/2021/02/04/era-uma-vez-criancas-que-nao-sabiam-que-existia-vida-alem-dos-eletronicos/

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